O povo de Olhão retoma esta Páscoa uma tradição árabe de confeccionar bivalves em cima de uma pedra redonda com caruma de pinheiro a arder. O método "vila de amêijoas" sobrevive ao passar dos séculos e hoje é considerado uma iguaria especial.
"Antigamente, aos domingos de Páscoa as pessoas ricas de Olhão iam a cavalo para os lados de Pinheiros do Marim comer vilas de amêijoas e os pobres faziam as vilas em cima das açoteias (terraços)", recorda Augusto da Paz, mariscador de 62 anos e um dos únicos homens daquela cidade piscatória a saber confeccionar a amêijoa em cima de uma pedra redonda.
A vila de amêijoas é um prato típico que se confecciona na época pascoal em Olhão e que apenas necessita de caruma de pinheiro, uma pedra e fogo.
"É um prato barato! Além das amêijoas só precisa de caruma e fogo, não é necessário nem azeite, nem sal", assegura o mariscador Augusto da Paz, orgulhoso por organizar esta Páscoa a 12ª edição do "Vila de Amêijoa", um certame gastronómico que decorre até domingo.
O ritual de preparação da amêijoa com a "boca" para baixo para que as cinzas da caruma não penetrem na assadura e a ordenação em círculo da amêijoa na pedra exige paciência e minúcia.
Numa espécie de dança tribal à volta de uma pedra redonda, o mariscador coloca, uma a uma, cerca de dois quilos de amêijoas em cima da pedra redonda que mais parece uma mó.
Quando o círculo está terminado são colocadas pedras de calçada para estancar a vila de bivalves e não os deixar cair no chão no momento da queima com caruma.
O calor da caruma a arder obriga as amêijoas a deixarem escorrer a água salgada do interior e é nesse exacto momento que o cozinheiro percebe que o petisco está pronto a servir à mesa.
"Quando pinga a água salgada é bom sinal! Quer dizer que a amêijoa está cozinhada", explica à Agência Lusa Augusto da Paz, que aprendeu atradição com o avó e o pai e que já está passá-la ao filho de 37 anos e ao neto de 13.
O petisco da Ria Formosa era acompanhado com vinho tinto, mas no certame do "Vila de Amêijoas" pode ser regado com cerveja ou vinho branco, depende do gosto de cada um, aconselha o "chef" mariscador, acrescentado que há um grupo de 20 pessoas de Serpa (Alentejo) que já encomendou "cinco vilas" (100 euros) para degustar neste fim-de-semana de Páscoa em Olhão.
A forma original de comer amêijoas em Olhão à moda antiga dos árabes também encanta os vizinhos espanhóis que aproveitam as mini-férias da Páscoa para darem um salto a Portugal e provarem o que de mais "gourmet" e tradicional se faz no Algarve.
"Vamos passar quatro dias no Algarve", adiantou à Lusa a cidadã espanhola Eva Romam, de 50 anos e a viver em Sevilha, enquanto sorvia delicadamente as amêijoas da vila.
"São óptimas", reconhece Eva, enquanto abre mais uma amêijoa tostadinha da caruma.
O evento gastronómico, vai decorrer no Jardim Pescador Olhanense, tem entrada livre e além de vilas de amêijoa, os gastrónomos podem ainda degustar xarém (papas de milho), lingueirão na chapa, arroz de marisco, sapateira ou camarão tigre.
Durante quatro dias, os visitantes vão poder ver a forma peculiar de confeccionar uma das espécies de bivalves da Ria Formosa mais famosa no mundo: a amêijoa.
Fonte. LUSA
Fotos: Armindo Vicente
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